Escrever um filho, plantar um livro e ter uma árvore
Senta que lá vem devaneio.
Há uma famosa frase feita que afirma que o homem, antes de morrer, deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Não consegui escapar de ouvir essa frase quando lancei meu primeiro livro, ainda que tenha sido um lançamento independente e, confesso, pobrinho, mas meus objetivos estão longe de se casar com essa ideia.
Pra começar, eu quero escrever muitos livros mais e, geralmente, pessoas de um livro só são aquelas que têm algo importante a contar sobre suas próprias vidas. Ainda não é o meu caso. Só me interessa contar histórias que eu tenha inventado. As que eu vivi de vez em quando ganham um artigo num blog e já está de bom tamanho.
Também ainda não sei se estou preparado para ter, decentemente, um filho. Se eu tivesse um filho nesse exato momento de minha vida, atrapalharíamos um ao outro. E também não sei se quero plantar uma árvore. Primeiro, porque não acho que isso importe em alguma coisa, se eu não puder zelar dela. Segundo, porque plantar uma árvore é algo que exige certo conhecimento, principalmente dentro da cidade.
Já morei em casa em que havia um ficus mal plantado na frente e, não fosse a "sorte" dela ter morrido, teria acabado com calçada, encanamentos, etc. Também já trabalhei numa empresa em que, numa data ecológica qualquer, o diretor promoveu um ato solene em que plantou uma árvore. Ele tirou fotos, recebeu palmas e a árvore, por falta de cuidados, já estava sequinha da Silva poucas semanas depois.
Dados os fatos, sugiro outra dinâmica. Que tal escrever um filho, plantar um livro e ter uma árvore? Para pessoas como eu, comuns como eu, ou incomuns como eu, essa pode ser uma saída mais viável.
Escrever um filho
é dar a ele uma boa base, uma boa educação inicial, com o cuidado, principalmente, de não repetir os mesmos erros de nossos pais ao nos
criarem. É óbvio que qualquer pai errará em alguma coisa na criação de
seus filhos, mas que sejam erros novos e NUNCA de propósito.
Também é um erro de alguns pais querer escrever a vida inteira do filho, obrigando-o a tomar esse ou aquele rumo. Não é bem assim que deve ser, e não é isso que eu defendo como "escrever um filho". Pelo contrário, várias foram as vezes em que, escrevendo uma história, eu quis que o rumo de um personagem fosse X, mas na "hora do vamos ver", percebi que o personagem ganhou uma força diferente da que eu supunha, e merecia outros rumos na história.
Da mesma maneira, os pais deveriam escrever as páginas iniciais da vida dos filhos, criando bons alicerces, mas respeitando os rumos que decidem tomar.
Plantar um livro vai além disso de escrever. Não, não basta escrever um livro, lançá-lo de maneira mais ou menos, fazer um coquetel de lançamento legalzinho, convidar 100 amigos, para que 60 compareçam, 40 comprem o livro e só 10 cheguem, realmente, a lê-lo — e desses 10, só uns 7 lerem até o final.
Divulgar um livro, fazê-lo ser conhecido, é uma tarefa árdua — e eu sei por experiência própria. O livro deve ser plantado, regado com dedicação para que sua sombra boa chame a atenção dos outros, gerando, então, os esperados frutos.
Por último, ter uma árvore vai muito além de plantar. Há árvores que demoram décadas para chegar à idade adulta. Se você simplesmente plantar uma dessas numa praça e depois nunca mais der atenção, ela só prosperará por pura sorte.
E às vezes realmente prosperam por pura sorte, o que é bom. O que seria da lendária figura de Johnny Semente-de-maçã, um cara que plantou inúmeras macieiras em vários estados dos Estados Unidos, se não fosse a tal sorte? (se bem que ele era um grande entendedor de macieiras). Mas dentro da cidade, nos espaços cada vez menores, plantar uma árvore e deixá-la à própria sorte pode ser uma péssima ideia.
Muitas vezes, mais vale não derrubar uma árvore que já estava lá. Talvez mudar o plano de calçamento do quintal, considerando uma jabuticabeira que já esteja ali. Ou ainda, preservar um limoeiro que dê limão rosa — espécie que, pouco a pouco, está sumindo dos quintais da minha vizinhança.
Ter uma árvore e cuidar dela com carinho vale mais que simplesmente plantar qualquer ramo em qualquer pedaço de terra e depois sumir.
É por isso que digo que prefiro plantar meus livros, ter uma árvore e, algum dia, quando me sentir plenamente capaz, escrever com cuidado e carinho a vida de um filho.
Publicado originalmente em 28/06/2014 no antigo Enki Jr. Blog. Saiba mais.
Há uma famosa frase feita que afirma que o homem, antes de morrer, deve ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Não consegui escapar de ouvir essa frase quando lancei meu primeiro livro, ainda que tenha sido um lançamento independente e, confesso, pobrinho, mas meus objetivos estão longe de se casar com essa ideia.
Pra começar, eu quero escrever muitos livros mais e, geralmente, pessoas de um livro só são aquelas que têm algo importante a contar sobre suas próprias vidas. Ainda não é o meu caso. Só me interessa contar histórias que eu tenha inventado. As que eu vivi de vez em quando ganham um artigo num blog e já está de bom tamanho.
Também ainda não sei se estou preparado para ter, decentemente, um filho. Se eu tivesse um filho nesse exato momento de minha vida, atrapalharíamos um ao outro. E também não sei se quero plantar uma árvore. Primeiro, porque não acho que isso importe em alguma coisa, se eu não puder zelar dela. Segundo, porque plantar uma árvore é algo que exige certo conhecimento, principalmente dentro da cidade.
Já morei em casa em que havia um ficus mal plantado na frente e, não fosse a "sorte" dela ter morrido, teria acabado com calçada, encanamentos, etc. Também já trabalhei numa empresa em que, numa data ecológica qualquer, o diretor promoveu um ato solene em que plantou uma árvore. Ele tirou fotos, recebeu palmas e a árvore, por falta de cuidados, já estava sequinha da Silva poucas semanas depois.
Dados os fatos, sugiro outra dinâmica. Que tal escrever um filho, plantar um livro e ter uma árvore? Para pessoas como eu, comuns como eu, ou incomuns como eu, essa pode ser uma saída mais viável.
Também é um erro de alguns pais querer escrever a vida inteira do filho, obrigando-o a tomar esse ou aquele rumo. Não é bem assim que deve ser, e não é isso que eu defendo como "escrever um filho". Pelo contrário, várias foram as vezes em que, escrevendo uma história, eu quis que o rumo de um personagem fosse X, mas na "hora do vamos ver", percebi que o personagem ganhou uma força diferente da que eu supunha, e merecia outros rumos na história.
Da mesma maneira, os pais deveriam escrever as páginas iniciais da vida dos filhos, criando bons alicerces, mas respeitando os rumos que decidem tomar.
Plantar um livro vai além disso de escrever. Não, não basta escrever um livro, lançá-lo de maneira mais ou menos, fazer um coquetel de lançamento legalzinho, convidar 100 amigos, para que 60 compareçam, 40 comprem o livro e só 10 cheguem, realmente, a lê-lo — e desses 10, só uns 7 lerem até o final.
Divulgar um livro, fazê-lo ser conhecido, é uma tarefa árdua — e eu sei por experiência própria. O livro deve ser plantado, regado com dedicação para que sua sombra boa chame a atenção dos outros, gerando, então, os esperados frutos.
Por último, ter uma árvore vai muito além de plantar. Há árvores que demoram décadas para chegar à idade adulta. Se você simplesmente plantar uma dessas numa praça e depois nunca mais der atenção, ela só prosperará por pura sorte.
E às vezes realmente prosperam por pura sorte, o que é bom. O que seria da lendária figura de Johnny Semente-de-maçã, um cara que plantou inúmeras macieiras em vários estados dos Estados Unidos, se não fosse a tal sorte? (se bem que ele era um grande entendedor de macieiras). Mas dentro da cidade, nos espaços cada vez menores, plantar uma árvore e deixá-la à própria sorte pode ser uma péssima ideia.
Muitas vezes, mais vale não derrubar uma árvore que já estava lá. Talvez mudar o plano de calçamento do quintal, considerando uma jabuticabeira que já esteja ali. Ou ainda, preservar um limoeiro que dê limão rosa — espécie que, pouco a pouco, está sumindo dos quintais da minha vizinhança.
Ter uma árvore e cuidar dela com carinho vale mais que simplesmente plantar qualquer ramo em qualquer pedaço de terra e depois sumir.
É por isso que digo que prefiro plantar meus livros, ter uma árvore e, algum dia, quando me sentir plenamente capaz, escrever com cuidado e carinho a vida de um filho.
Publicado originalmente em 28/06/2014 no antigo Enki Jr. Blog. Saiba mais.
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