5 ranços da Língua Portuguesa que você precisa conhecer (e os argumentos que você deve avaliar)
Regras estão aí para serem
cumpridas, ou subvertidas quando não concordamos com elas. É assim em tudo,
inclusive em gramática, linguística, etc. Vários escritores de Língua
Castelhana, por exemplo, se recusaram a usar a interrogação invertida no início
das perguntas em suas obras literárias, mesmo ela sendo regra. Sinceramente, os
hispânicos com quem eu já conversei nos MSN e Skypes da vida rarissimamente a
usavam.
O Português também tem suas regras que acabam gerando pequenas
picuinhas e discussões bobas que, volta e meia, me fazem questionar a posição
de nossos gramáticos e da população em geral, especialmente aquela que afirma
ter um pouco mais de instrução. Dessa vez, citarei algumas coisinhas que eu
denomino “ranço”, mas é certo que lembrarei, mais adiante, de muitas outras
bobagenzinhas que me incomodam em nosso idioma e na forma com que ele vem sido
administrado.
#5 – “Tá”, “cê”, “pra”
A “norma culta” de nosso
idioma costuma tratar as contrações de maneira muito estranha. Se uma pessoa dá
entrevista contendo os termos “tá”, “cê”, “pra” ou afins, a transcrição ou a
legenda certamente terão aspas ou, na melhor das hipóteses, os termos serão
escritos em itálico. Às vezes, o itálico até deixa parecendo mais errado ainda.
Até concordo que não é muito
sacrifício falar “você” em vez de “cê”, fora que esse pronome pessoal, afinal,
já vem da contração de “vossa mercê” que virou “vosmecê” e daí por diante. Mas,
ora, ninguém é obrigado a falar “está”, “estou”, “estava” o tempo todo. A
gramática inglesa resolveu isso de maneira muito simples: transformou I am em “I’m”, you are em “you’re”, it is
em “it’s”, will not em “won’t” e daí
por diante. Saudemos o bendito do apóstrofo!
Acontece, porém, que o
apóstrofo praticamente não pertence às palavras, no Português. Fora alguns
casos como “d’água”, ele é sistematicamente ignorado. Ainda assim, já vi,
algumas vezes, tentativas de se escrever ‘tá, ‘tô, que eu acho louváveis, e
esteticamente mais bonitas que as aspas ou o itálico discriminativo que parece
gritar “essa palavra TÁ errada”. TÁ. Mas nunca passaram de tentativas.
Já vi Maurício de Souza fazer
um arranjo interessante: ‘xá comigo. Poderia obrigar o personagem a dizer
“deixa comigo”, embora seja pouco usual no dia a dia. Poderia colocar o “xá”
entre aspas, ou em negrito como faz com os erros do Cebolinha, mas preferiu
usar o apóstrofo. Nesse caso, apoio o Maurício. E adoraria que isso um dia
virasse regra, PRA podermos brincar melhor com nossas palavras e suas
contrações.
#4 – Mussarela
Existe uma regra muito
estranha no Português, que prevê que palavras italianas que contenham o
encontro “zz”, ao serem aportuguesadas, passem a ser escritas com “ç”. É uma
regra que, dizem, não tem exceções. Funciona assim com “caçarola”, por exemplo.
Para o pavor dos gramáticos, porém, é muito raro você encontrar um lugar onde
se venda “muçarela” – que é a grafia correta – sendo mais comum você ir ao
supermercado e encontrar bandejinhas de “mussarela”.
O que nenhum gramático pode impedir, no entanto, é um fato bastante notório: “muçarela”, com cedilha, é feio! Certo ou errado, o termo “mussarela” com “ss”, é muito mais agradável visualmente, e não há Pasquale que dê jeito nisso.
O que nenhum gramático pode impedir, no entanto, é um fato bastante notório: “muçarela”, com cedilha, é feio! Certo ou errado, o termo “mussarela” com “ss”, é muito mais agradável visualmente, e não há Pasquale que dê jeito nisso.
Tenho uma teoria: parece que
foi se tornando muito comum ao brasileiro presenciar erros crassos em que
palavras escritas com “ss” são escritas com “ç”. “Groço”, “foça”, “receço”,
“açadeira”, “caçar o mandato”, e daí por diante. Aí não adianta: a população se
divide entre a massa que acredita que “mussarela” é o correto e outra pequena
parte que, como eu, sabe que “muçarela” se escreve com cedilha, mas acha feio.
Aliás, correto ou não, o povo brasileiro já se acostumou com “mussarela”, de tal forma que a escrita com cedilha chega a causar incômodo. E isso é perfeitamente justificável.
Aliás, correto ou não, o povo brasileiro já se acostumou com “mussarela”, de tal forma que a escrita com cedilha chega a causar incômodo. E isso é perfeitamente justificável.
Como não bastasse a mussarela "errada"... (Créditos: Nadaver.com)
Felizmente, o brasileiro se
acostumou a falar a palavra “pizza” – talvez por causa da grande e histórica
imigração italiana no Brasil – e, assim, não foi necessário criar uma versão
aportuguesada, embora, em Portugal, costume se escrever “piza”, com um “z” só –
ou seja, a tal regra do “zz” só vale no Brasil, é isso? Graças a Deus, também
não tiveram a ideia de oficializar o vocábulo “pítiça”, que ficou exclusivo às
piadinhas. Também não usaram a regra a ferro e fogo e traduziram o termo “pizza”
como “piça”, o que seria muito tenso – não vou explicar aqui o que quer dizer
“piça”, se você não sabe, procura o Dicionário Informal.
#3 – “Eu vi ela”
“Eu a vi”, corrigia um amigo
meu. “Viela é uma rua pequena”, completava.
Mas por que “eu vi ela”, “eu encontrei ela” e termos assim fazem tanta gente torcer o nariz?
Confesso que já falei tal
expressão por bastante tempo, mas hoje, mesmo depois de “me corrigir”, não me
importo muito com quem não diz “eu a vi”, “eu a disse” e coisas assim.
Há vezes em que “eu a vi”, combinado com o resto da frase, não deixam a mensagem compreensível logo de cara. Se você discorda de mim, deve ser porque nunca precisou repetir uma frase que contivesse o termo “eu a vi” para que a outra pessoa entendesse – eu já, muitas vezes.
Há vezes em que “eu a vi”, combinado com o resto da frase, não deixam a mensagem compreensível logo de cara. Se você discorda de mim, deve ser porque nunca precisou repetir uma frase que contivesse o termo “eu a vi” para que a outra pessoa entendesse – eu já, muitas vezes.
Trocar a palavra “ela” pela letra “a”, que ainda por cima também serve como artigo definido, tende mesmo a causar uma confusão que não existe, por exemplo, na língua inglesa (She loves me / I love her). Se você discorda de mim, paciência, mas não consigo achar “eu vi ela” algo tão errado assim.
E também acho plenamente justificável que nem todo mundo conheça essa tal “regra”.
#2 – “Antes de ontem”
Eu não odeio a Língua
Portuguesa, como pode parecer às vezes. Mas acho bastante curiosa a forma como
nosso idioma dá opções por um lado e não dá por outro. Ou seja, não é errado
você falar “depois de amanhã”, mas é errado você falar “antes de ontem”, e esse
é o tipo de ranço linguístico que não entra na minha cabeça!
A norma culta diz que o
correto é ‘anteontem’. Mas a mesma norma culta não nos dá uma opção como
‘posamanhã’, por exemplo. Nesse caso, situação semelhante aparece no espanhol:
anteontem é anteayer, e depois de
amanhã é pasado mañana. Mas talvez o
nosso “anteontem” se torne menos atraente que o anteontem de um dos idiomas que
mais se assemelha ao nosso por causa de dois fatores: pronúncia e lógica. No
idioma espanhol, a letra ‘e’ é sempre ‘e’, já para nós, os prefixos anti (que significa oposição) e ante (que significa anterior) têm a
mesma pronúncia.
Quanto à lógica, pasado mañana é um fenômeno
completamente diferente de depois de amanhã. Para começar, pasado é verbo e depois é
um advérbio, logo, a discrepância entre as duas situações já está na cabeça do
hispanófono, diferentemente do que acontece na mente do lusófono. Ou seja, se
depois de amanhã vem depois de amanhã,
antes de ontem veio antes de ontem.
Mas toda essa ladainha era só para dizer uma coisa: quem falar “antes de ontem”
para mim, não será corrigido. Beijo.
#1 – Cadê
Esse é dos mais novos ranços
que descobri, e que já discordei logo de cara! Mesmo não sendo considerado
gíria e pertencendo a nosso vocabulário oficial e a nossos dicionários, tem
gente que defende com unhas e dentes que você não deve falar o advérbio “cadê”!
Assim como você é uma contração de “vossa mercê”, cadê é a forma reduzida de “o que é
de?”, no sentido de “onde está”. Aquilo que no inglês é resolvido com “where is/where are” e no espanhol com “donde está/donde están”, em português é
resolvido com simples quatro letras: CADÊ?
O que acho? Acho mágico!
Conseguimos desenvolver frases com sentido verbal sem usar verbo! Isso é lindo,
maravilhoso, poético. E poético em todos os sentidos. Pensemos em quantos
poemas de nossa cultura usam o vocábulo “cadê”! Talvez o nosso “cadê” seja a
tal “palavra que só existe no português”, e não a manjadíssima “saudade”, cuja
não-existência em outros idiomas vem sido contestada há algum tempo.
Não dê ouvidos a quem diz que
a palavra “cadê” está errada e deve ser abolida. Cadê é bonito. Cadê é legal.
Cadê o bom senso de quem inventa uma patacoada dessas?
* * *
Esses foram os ranços da Língua
Portuguesa que me incomodam. Se você leu até aqui, obrigado. Mas já que você
leu até aqui, leia também ao bônus rançoso final...
# BÔNUS PLUS – Obrigado
“Muchas gracias”, diz o
espanhol. “Grazie”, diz o italiano. Todos
demonstram agradecimento, por que demonstramos obrigação?”, dizem uns. Sim,
tem lusofalante que defende a todo custo que abandonemos o “obrigado” e
passemos a dizer coisas como “muito grato” ou “estou agradecido”.
Antigamente eu defendia sim
que usássemos o termo “obrigado” justamente pela poesia de se controverter o
significado original das palavras.
Hoje sei que não é bem por
aí. O “obrigado” que falamos como interjeição não vem do ato de se fazer algo
na marra, e sim, do verbo “obligare”, do latim, que significa ligação moral. O
sentido original, portanto, era: “me sinto ligado moralmente ao bem que me
fizeste”, e a frase original era “fico-lhe obrigado”. Logo, nada tem a ver com
fazer algo contra a vontade.
Saber que “obrigado” como
interjeição é uma palavra e o particípio do verbo obrigar é outra palavra faz
toda a diferença. Quem quiser substituir por “muito grato” que substitua, é
livre para isso. O que não cabe é, assim como no caso acima, do “cadê”, tentar
criar toooooda uma campanha de conscientização de que a palavra deveria ser
abolida em nome de outra mais adequazzzzZZZzzZzzzZzzZzZZzZZZzzz...
Obrigado não é obrigação.
Obrigado não é errado.
Obrigado a quem leu ;-)
Atenção: o texto acima tem mais valor opinativo que acadêmico.
Publicado originalmente em 03/05/2014 no antigo Enki Jr. Blog. Saiba mais.

Leave a Comment