O boletão do PayPal e minha professora de inglês nos anos 90
Quem é, vamos dizer assim, usuário nível II da internet, sabe o que é PayPal. Acabei de inventar esse "nível II" para distinguir de um nível I que seria o das pessoas que não compram na internet por não confiarem que isso dê certo. É só uma alegoria, não se deixe estigmatizar.
PayPal é uma forma bastante segura de se fazer pagamentos pela web, tendo uma garantia a mais de que seu cartão não será clonado, por exemplo. É uma empresa privada. Até agora, para usar PayPal você precisava já ter um cartão de crédito.
No Brasil, porém, muitas são as pessoas que preferem boletos, no mais das vezes por motivos estruturais do país, mais do que por realmente gostarem. No momento em que o PayPal passou a aceitar boleto, ele se abriu à possibilidade de ser usado por um público imensamente maior que quando não havia essa opção. Agora, é provável que o PayPal venha a se "orkutizar", como se dizia no início dos anos 2010.
Num país com tantas nuvens turvas sobre a economia, oferecer a opção "boleto" torna-se fundamental, ainda que a ideia não agrade qualquer empresa. A plataforma de games Steam, por exemplo, cobra uma taxa de risco sobre o preço do jogo vendido por boleto, já que há um custo para gerá-lo e nem sempre quem o gera efetua o pagamento. Inclusive, aqui eu visto a carapuça.
Muito antes do PayPal movido a boletão, a internet brasileira (e mundial) se tornou a prova viva de como uma professora de inglês que tive no final dos anos 90 estava enganada.
Ela defendia o aprendizado da língua inglesa como algo muito importante, especialmente por causa do desenvolvimento da informática. Era uma época de muita especulação e internet disponível para pouquíssimas pessoas.
Hoje em dia, de fato, é bom você saber inglês se quiser mexer com programação, por exemplo. Mas para uma simples navegação na internet, a boa e velha língua-mãe é suficiente.
A segunda parte da teoria de minha professora era a mais interessante: inclusive por causa dos computadores, todas as outras línguas desapareceriam no futuro, e o inglês se tornaria a língua única.
Bem, a universalidade do inglês é verdade. Já era verdade naquela época. Tentativas como o Esperanto, idioma criado por intelectuais, não foram capazes de superar uma língua com tanta história.
Outras línguas já foram as universais de outras épocas, como o grego e o latim, portanto, não deveria causar escândalo que o inglês seja a língua universal de nossos dias.
Mas se depender da internet, ele dificilmente engolirá as outras línguas. Pelo contrário: na internet as empresas é que falam o idioma do cliente e não o contrário. Há games de empresas de médio porte que mal são lançados e já têm versão em português e em outras línguas. Mais ainda: há vezes em que uma empresa, ao chegar num lugar onde nunca esteve, além de aprender a língua daquele lugar ainda aprende hábitos e gírias.
E mais e mais: nunca esteve tão fácil ter acesso a qualquer ritmo musical de qualquer lugar do mundo. Dia desses, com poucos cliques, ouvi uma música de Papua Nova Guiné no YouTube. O haka do povo maori nunca foi tão popular quanto hoje em dia, também graças à plataforma. Aprender pratos de comida estrangeiros também está mil vezes mais fácil hoje que no fim dos anos 90.
Após pouco mais de 10 anos do começo da super-popularização da internet, já dá para garantir uma coisa: não haverá a obrigação do cartão de crédito, tampouco a de saber inglês.
Leave a Comment